Enamoramento e amor
"Ninguém se enamora se está, mesmo parcialmente, satisfeito com o que tem e com o que é. O enamoramento surge da sobrecarga depressiva, isto é, da impossibilidade de encontrar alguma coisa de valor na vida cotidiana. O "sintoma" da predisposição para o enamoramento não é o desejo consciente de se apaixonar, enamorar, uma forte intenção de enriquecer o existente, mas sentimento profundo de não ser e não ter nada de valor, e a vergonha de não tê-lo. Esse é o primeiro sinal da preparação para o enamoramento: o sentimento da nulidade e a vergonha da própria nulidade. Por essa razão, o enamoramento é mais freqüente entre os jovens, pois estes estão profundamente inseguros, não têm certeza de seu valor e muitas vezes se envergonham de si mesmos. E o mesmo é válido em outras idades da vida, quando se perde algo do nosso ser; no final da juventude ou quando começa a velhice. Perde-se irreparavelmente algo de si, fica-se privado de valores, degradado, no confronto com o que se foi. Não é a nostalgia de um amor que nos faz enamorar-nos, mas a certeza de que ada temos a perder tranformando-nos naquilo em que nos transformamos; é a perspectiva de ter o nada pela frente. Somente então se estabelece dentro de nós a disposição para o diferente e para o risco, a propensão de nos lançarmos no tudo ou nda que aqueles que de alguma forma estão satisfeitos com o próprio ser não poderão experimentar."
ALBERONI, Francesco. Enamoramento e amor. Rio de Janeiro, Rocco: 1991. pp. 46-47 (trad. Ary Gonzalez Galvão)
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