As palavras
Eu sou um cão: bocejo, as lágrimas rolam, sinto-as rolar. Eu sou uma grande árvore, o vento se agarra a meus ramos e os agita vagamente. Eu sou uma mosca, subo por uma vidraça, despenco-me, recomeço a subir. Às vezes, sinto a carícia do tempo que passa, outras vezes - o que é mais freqüente - sinto que ele não passa. Trêmulos minutos tombam, me engolem e não param de agonizar; corrompidos, mas ainda vicos, são varridos e outros os substituem, mais frescos, porém igualmente vãos: estes fastios se chamam felicidade; minha mãe vive me repetindo que sou o mais feliz dos garotos. Como não haveria de acreditar nela, se é verdade? No meu desamparo, eu nunca penso; primeiro não há palavra para nomeá-lo; além disso, não o vejo: os outros não param de me cercar. É a trama da minha vida, o tecido de meus prazeres, a carne de meus pensamentos.
Jean-Paul.
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