O embrulho da carne
E aí ja era tarde, eu já tinha me descontrolado e engoli um Melleril, sem água nem nada. Mas isso foi o de menos, o pior foi o fogo. Eu posso ser uma burguesinha fresca que faz análise, mas, de repente, aquela moça enforcada era eu, entende? E muito mais do que você imagina. Porque eu era ela até fisicamente, pois minha mão estava suja da tinta do jornal e engordurada da carne. Na pressa de sair da cozinha nem lavei as mãos e, para mim, eu estava engordurada era da carne da moça. Ao mesmo tempo era eu quem balançava, enforcada, na escuridão da noite, num vagão de trem abandonado. E não havia ninguém para vir em meu socorro, não havia ninguém comigo.
SANT'ANNA, Sérgio. O Vôo da Madrugada. São Paulo: Companhia das Letras, 2003
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