Sunday, February 06, 2005

Epifania

O momento da avaliação

Uma dissertação é essencialmente feita para ser corrigida. Prova disso é que o professor parte do princípio de que, no exercício de um estudante, há sempre menos do que ele quis colocar, enquanto no texto de um filósofo há sempre mais. Uma dissertação não corrigida não é verdadeiramente uma dissertação, ela não conta, é uma simples ida sem volta, que se perde nas areias do informe, como um diálogo platônico do qual Sórates subitamente se ausentasse. Daí a importância maior que o estudante atribui à nota, importância que está longe de ser o sinal de um espírito imaturo e que merece algo bem diferente do desprezo. Um exercício sem nota nem correção digna desse nome simplesmente não realiza sua essência, equivale a um filme fotográfico operado e não revelado nem copiado.
Certamente se pode questionar a avaliação, suas regras ou seus avatares, mas é preciso respeitar seu príncipio, pois ela cumpre uma função capital. Todo corretor sabe que deve entregar todos os exercícios com nota e anotações, já que se encontra na posição socrática do espelho que, literalmente, nada deixa passar e reflete todos os raios emitidos. O exercício filosófico nada significa sem esse penoso trabalho de negativo. Sem ele, o "corretor" é um demagogo que, a exemplo da vidraça, deixa passar tudo sem refletir nada de volta. Ao deixarem Sócrates, seus interlocutores talvez nada tivessem aprendido, mas uma coisa ao menos restava: acreditavam saber e não sabiam.
O estudante tem direito portanto a uma nota - boa ou má, não importa. Essa condição permite ao pensameto em gestação e em atividade apoiar-se sobre um "real" resistente, num obstáculo para dimensionar a si próprio e retornar a si mais bem preparado.
Moral da história: é preciso multiplicar as dissertações e terminar por entregá-las - sem esticar os prazos e sem abusar da paciência do professor -, terminá-las para entregá-las, em vez de passar semanas sobre uma obra-prima em potencial que não entrará no circuito, em nome de uma exigência de qualidade inteiramente deslocada, quando não um tanto louca, proveniente daquele fantasma de perfeição que conduz à má abstração do interminável e ao drama do inacabado. É preciso aprender a terminar uma dissertação, e a correção com nota, afinal de contas, é um término bastante bom.

Algo que li hoje.
Penso seriamente em tirar cópias e entregar aos professores do departamento.



2 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Fonte = ???

E.

arrabalde.blog.uol

6:39 pm, February 10, 2005  
Blogger Lady Pink said...

Eu conto onde li, se você me disser o que achou. (aceito críticas)

2:39 am, February 13, 2005  

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